“Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”.
Por dentro, num interior tão profundo quanto desconhecido, existe aquela Voz. Ecoa na mente e agarra-se às memórias. Desperta sensações e estados de espírito que a compreensão humana tem dificuldades em conseguir expressar. O medo multiplica-se a cada dia. Não existe a adaptação. Não. As palavras surgem sem preparação. Despertam quem quer adormecer e, por breves momentos, esquecer a linha da meta, o fim de uma jornada, a passagem. Ver alguém atingir o fim de uma etapa é angustiante. Nós, estáticos, interiorizamos o sentimento de enorme impotência que nos arruína lentamente. A perda é dolorosa mas, um dia, com a consciência e racionalidade que nos é característica, sabemos que será a nossa vez. Só não sabemos quando.
Deitado, e observando o vazio, lembrava, no mesmo tempo em que aprendia, que o Passado é a escola do Presente e o que interessa é levar daí as maiores lições para a vida, para o Futuro. Nesta aprendizagem, deste jogo que fingimos ser jogadores principais, é incutido nas nossas mentes que somos capazes de ter controlo sobre qualquer desejo ou vontade. Que as maiores dificuldades são superadas pelo querer, pela conquista do sonho. Que as lágrimas serão sempre limpas com a verdade de um sorriso. Mas, em momento algum, é dito e incutido que controlamos o tempo. Que controlamos a vida na sua linha temporal. Não é mencionado porque é verdade. E a verdade pode ser tão dolorosa quanto a perda.
E, assim, num ruidoso silêncio, apercebemos-nos que, talvez, o nosso poder sobre as coisas é limitado e não tão poderoso como pensamos ser. É a roleta russa. É a sorte no tempo e no seu estado mais puro.
O copo de bourbon está quase no fim. E é importante reter que se tornou no meu principal companheiro. Não só o copo,claro, mas, também e sobretudo, a bebida. Duplo e sem gelo, por favor!
De um só gole, como se de um shot se tratasse, acabo com o pouco que tinha. O ardor na garganta é sinal que não era tão escasso quanto parecia ser mas, após toda aquela sensação de queimadura, a calma é notória. As mãos param de tremer e o medo, por breves momentos, fica longe da minha percepção. Esta droga alivia a dor. Alivia mas não esquece.
“Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”.
A Voz. Sempre ela. A Voz. Sempre aquelas palavras. A Voz. Sempre o medo. Até onde? Até quando? Porquê? As questões acumulam-se na mesma medida da incerteza. A loucura só é quando se perde a noção da realidade. Será esse o problema? A minha perda de lucidez perante o mundo? Será a perda capaz de retrair a vontade? O sonho? O desejo?
A noite já vai longa. O corpo pede uma última dose. Encho-o e, em breves segundos, acabo com as dúvidas. A mente adormece. Até amanhã, Voz.
O problema é que, muitas vezes, adormecer não é suficiente para nos livrarmos da dor. Ela fica lá, num qualquer sítio entre a alma e o coração, e teima em perseguir-nos em sonhos. Estou a dormir, sei que estou a dormir, o meu corpo está sossegado e o meu batimento cardíaco está normal, o que é relativamente raro. Estou a dormir, mas a dor está acordada. A dor está sempre acordada, a puta da dor está sempre acordada. Não é uma dor física, antes fosse, as dores físicas podem ser apertadas até passarem, desinfectadas até cicatrizarem, cuidadas até sararem. É uma dor de alma, se é que a alma existe. É uma dor que não pode ser localizada, uma dor que não sei ao certo onde fica, uma dor que me adormece os sentidos e me faz perder o chão, uma dor que está aqui, noite ou dia, quer esteja acordado, quer esteja a dormir. A dor de ser mortal. Que espectáculo de marionetas é este, engendrado por um ser especialmente maquiavélico, capaz de nos dar vida e nos manusear como bem lhe apetece, lançando-nos ao mundo com uma única certeza: a de que vamos morrer. Não sabemos quando. Não sabemos como. Não sabemos se a nossa morte vai ser dolorosa ou, pelo contrário, pacífica. Não sabemos sequer se a morte dói ou se é apenas um adormecer lento, um sono prolongado.
Não sabemos nada. Só sabemos que vamos morrer. E vivemos com essa noção cruel de que vamos chegar à meta, vamos lá chegar, provavelmente coxos, esfarrapados, sem discernimento nem dignidade, com marcas e cicatrizes permanentes dentro do peito. Pelo caminho vamos perdendo aqueles que amamos e outros que não soubemos amar quando mais precisavam, aprendemos o que é o amor e o "desamor", encontramos pessoas que nos ajudam a construir palácios para, depois, os destruírem num sopro, sentimos a alegria das pequenas coisas e choramos a tristeza de não alcançarmos as grandes, ganhamos e perdemos, encontramos e desencontramos, amamos, odiamos, invejamos, sentimos o sabor amargo da frustração e a calma dos sonhos concretizados. E continuamos a caminhar. Não sabemos sempre por onde ir, nem sequer temos consciência de qual é o caminho certo, nunca chegamos a saber nada, rigorosamente nada, não somos donos do tempo, não podemos prender quem quer ir embora, não obtemos tudo o que desejamos nem recebemos tanto amor quanto gostaríamos de receber. E, em momentos como este, pergunto-me se não seremos apenas marionetas sem livre arbítrio, orientadas pelas mãos de alguém, enquanto vivemos na doce ilusão de que controlamos o que quer que seja.
Acordo de repente. Dói-me o peito como se alguém estivesse sentado em cima de mim. O pânico. A porcaria do pânico. Os ataques chegam quando menos se espera e quando se pensa demais – e como posso não pensar demais quando sei que sou mortal e que tudo o que amo é, também, mortal? Acendo a luz, abro a gaveta da mesa de cabeceira do lado esquerdo da cama e agarro a caixa de comprimidos SOS que o meu médico me receitou para estas situações. Não os devia tomar depois de ter bebido, conheço os efeitos das misturas entre álcool e medicamentos, mas neste momento nem isso me interessa. Tomo dois comprimidos com um resto de água que está há alguns dias em cima da mesa de cabeceira. O meu coração quer saltar fora do peito, bate tão depressa que quase o consigo ouvir. Depressa a medicação faz efeito e acabo por adormecer, desta vez com a mente mais limpa. A dor ainda cá está e sei que esperará por amanhã para continuar a consumir-me. Amanhã será um dia a mais. Ou a menos. Prefiro acreditar no copo meio vazio.
[8h30 da manhã]
É verão e o calor já é muito a esta hora da manhã. Abafado, com a cabeça pesada, levanto-me. Ligo a ventoinha e deixo o quarto a refrescar. Ainda meio ensonado, e também com uma terrível dor no estômago, esfrego os olhos e espreguiço-me. Sinto-me vazio. A noite anterior é uma nódoa negra na memória. Pior do que acordar numa manhã na incerteza do que virá é acordar sem se lembrar do que sonhou.
Pego no telemóvel. Abro o e-mail, um punhado de redes sociais, algumas apps de jornais diários, a conta do banco para verificar o saldo e as transferências e os lembretes do dia. Sim, lembretes! A memória, em alguma parte, começou a deteriorar-se. Não existe a frescura nem interesse de outros tempos.
Olho-me ao espelho. O rosto está cansado. As olheiras, carregadas de noites mal dormidas, juntam-se às primeiras rugas. Às marcas de guerra de uma vida que ficam registadas no corpo. Enquanto isso, ainda estou a fazer o esforço para me lembrar do sonho. Sim, porque num subconsciente estará perdido o sonho desta noite. E quero viajar até lá e recordá-lo.
Não paramos para fazer esse exercício. Habituamos-nos à rotina sem perceber que estamos a perder momentos importantes e que completam esta passagem por cá. Reduzimos-nos à insignificância por acharmos sempre que os outros são melhores do que nós ou porque simplesmente não somos capazes. Sem os sonhos, sejam eles como e de que maneira forem, são essenciais para nos mantermos vivos e agarrados ao desejo de conhecer e conquistar.
Nunca acreditem em profetas. Os presságios são tiros no escuro. E eu já estou cravejado de balas que falharam o destino e acabaram no alvo errado. Imaginem alguém com um machado e que divide simetricamente as vossas emoções. Numa parte tens a dúvida, noutra a certeza. Pegas nas duas e colocas na balança. Mas, diferente de todas as outras balanças, esta demora a calcular. Diria até que a vida não é suficientemente longa para determinar o valor e a importância exata de cada parte. A vida, desde o seu início, prepara diferentes etapas e todas elas têm um início, meio e fim. E, o mais importante, é compreender que quando termina um ciclo outro imediatamente a seguir se está a iniciar. São estas etapas que moldam quem somos e nos preparam para sobreviver, dia após dia.
Senti uma vibração forte na cabeça. A dor surgiu instantaneamente. Agoniante. E a Voz…
“Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”
Os minutos que se seguiram foram aterrorizantes. Dentro de mim escutei risos e choros, gargalhas e suspiros, convívios e solidão. Opostos que se uniram em memórias fugazes. As pernas tremem e fraquejam. Estou de joelhos. Com as mãos na cabeça tento acalmar a dor. Em vão. O coração palpita forte. Sinto o coração a bombear o sangue com enorme força pelas veias. Preciso de me acalmar.
Com esforço, levanto-me e vou em direção à cozinha. Pego num copo, abro o frigorífico, e tiro de lá uma garrafa de água fresca. Encho e bebo. O cérebro congela e atinjo o pico da dor. A partir daí será tudo mais leve. É o meu truque e resulta sempre.
Sento-me no velho cadeirão. Passo as mãos na cara.
- Estarei louco? Que Voz é esta? O meu corpo está tão frágil!
Olho para o vazio. Por mais que se tente desprezar algo que aconteceu no Passado ele renascerá, mais tarde e mais forte, dentro de ti. Ele fará ver-te que o que aconteceu não deverá ser esquecido. Os erros são lições da vida e não existe borracha para os apagar. Preparam-nos para o desconhecido. No entanto, esta permanente gravação do que não se pode esquecer deixa-nos a questionar quem somos e o que estamos aqui a fazer. Estas emoções dúbias corrompem a nossa determinação e, sem isso, não somos capazes de encarar a realidade que se aproxima.
E, de repente, o sonho da noite… o subconsciente apodera-se de mim…
Recordo a noite anterior com clareza, o pânico, a dor no peito, o desespero, o álcool e os medicamentos. E assola-me a mente a imagem que dormiu comigo, no meu subconsciente, a imagem que não me abandona: a imagem do meu pai. Morreu há seis meses, vítima de ataque cardíaco. À minha frente. A merda dos ataques cardíacos. Vi-o ser consumido pelos vícios depois de uma espiral negativa. Vi esta doença sem rosto a aparecer, fugazmente. O meu pai tinha olhos grandes e escuros onde cabia o mundo inteiro, um coração que recebia todos aqueles que nele quisessem entrar e um abraço quente e apertado, daqueles que nos esmagam os ossos mas de onde não nos apetece sair. O meu pai era a melhor pessoa do meu mundo. Era duro mas uma boa pessoa – e até as melhores pessoas adoecem. Não nos serve de nada sermos bons, adotarmos um estilo de vida seguro e levarmos a vida nas calmas se, no final, as doenças nos escolhem a todos, caem-nos em cima com o peso do mundo e não nos deixam respirar. É quando nos morre uma mãe ou um pai que percebemos que podemos ser amputados sem nos cortarem os membros superiores ou inferiores: amputados de pilares, os pilares que alicerçaram a construção dos castelos e palácios daquilo que somos.
Quando o meu pai ficou desgastado com o tempo eu ainda era um rapaz cheio de positividade. Encarava a vida como uma dádiva e achava que na mente residia a cura para todos os males, inclusive os do corpo. Não vou mentir: doeu-me ouvir o meu pai a querer desistir muitas vezes. Duas palavras tão simples que, juntas, podem destruir vidas e matar sonhos. Quero desistir. Senti-me ficar sem chão, chorei, em silêncio, muitas vezes. Disse-lhe que ia ficar tudo bem e ele apertou-me com a força de quem se quer agarrar à vida e as minhas lágrimas secaram. Durante a luta contra a espiral negativa mantive sempre a mesma atitude e, de cabeça erguida, dei a mão ao meu pai e vivi com ele toda aquela jornada, com tudo o que de bom e de mau isso implicou. Ao fim de alguns anos, lágrimas e muita dor, tudo aconteceu. Fugazmente, caiu para o lado. à minha frente. Só ele e eu. Agarrou-me no braço e senti a ir-se, sem conseguir fazer absolutamente nada. Só o ouvia a chamar por mim. Para o ajudar. E falhei.
Quando percebi a morte não consegui reagir, congelei. Fiquei estático, petrificado, imóvel. Na minha cabeça ecoavam, numa repetição constante, as palavras: “Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”. Foi nesse momento que percebi que nunca estamos preparados para a morte, mesmo que haja doença, mesmo que haja desgaste, mesmo que não haja esperança. Nunca estamos preparados para a morte e é quando achamos que estamos que ela nos apanha de surpresa. Sempre de surpresa. Engane-se quem acha o contrário.
Depois da morte do meu pai fiquei amargo, de mal com a vida. Perdi todas as minhas crenças, todos os meus valores acabaram por ficar distorcidos, disformes. Senti-me amputado: senti-me sem braços e sem pernas. Os pais são, de certa forma, os nossos braços e as nossas pernas: precisamos deles e não concebemos a ideia de, um dia, já não estarem. O meu coração vestiu-se de negro e recusa sair à rua e expor-se à luz. Não me despedi do meu pai. Não houve tempo. Não me lembro da voz dele. Não consigo sentir o seu toque. Não sei quando demos o último abraço nem quando foi a última vez que lhe dei um beijo de proteção na testa. Não sei. Não sei. Não sei. E a voz ecoa na minha cabeça, como um ruído irritante que não sai de mim: Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro.
[Seis anos antes]
O despertador toca. Nunca gostei de definir músicas da moda para o meu alarme matinal. Continuo a preferir aquele toque irritante que me obriga a abrir os olhos, pegar o smartphone e desligar o alarme. Desperto e não volto a adormecer.
Levanto-me rapidamente. Vou tomar um duche. Para variar acordei mais cedo que o necessário. Nunca gostei de chegar atrasado a nada e preciso de tempo para preparar as minhas coisas. E já não é cedo. Mas esta minha nova vida está a consumir muito do meu tempo.
“Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer” não se aplica, de todo, a mim.
São cinco horas da tarde. Não fui às aulas da universidade mas não falto ao jantar com alguns dos meus novos amigos. Acabam por ser prioridades de um jovem sedento por liberdade e com alguma rebeldia à mistura. O jantar é às 19h30. E a casa do Francisco é do outro lado da cidade. Só preciso de comprar umas bebidas e faço-me ao caminho.
Hoje tenho algumas coisas importantes em mente. Não são as aulas nem o início da minha vida académica. Mas sim a Ariana. Paixões instantâneas. Sim. Em dois meses já conheci mais raparigas do que em todos os anos da minha existência. Eu? Raparigas? Estou no meu novo mundo. Sinto que não sou eu mas estou viciado. Em pouco tempo esta adrenalina, e alguma testosterona a mais, está a deixar-me dependente.
A Ariana é o estereótipo de mulher perfeita. Na minha visão. É divertida e, como eu, tem uma certa dose de timidez. É preciso saber levá-la e que ela goste de nós para dar confiança. Tive a sorte de ter as duas coisas. Depois, aquele cabelo castanho super claro, escurecido no tom mas ainda assim brilhante, liso – ligeiramente ondulado nas pontas -, olhos escuros mas delineados, maças do rosto com linhas perfeitas, covas elegantes quando esboça o seu sorriso, os lábios ligeiramente carnudos, tal como eu gosto, e uma silhueta corporal perfeita fez com que esteja interessado nela.
Antes de sair de casa, pego no telemóvel e ligo à minha mãe. A única pessoa que tento não deixar um dia sem dar notícias. Bastam três toques e atende.
- Olá – cumprimenta-me com a voz mais ternurenta que me lembro. – Como está o meu menino?
- Olá. Estou bem. E por aí? – Respondi.
- Também. Está frio e de chuva – A minha mãe sempre gostou de me atualizar sobre o tempo embora essa informação saísse da minha cabeça mais rapidamente do que entrou – Cheguei agora a casa do trabalho.
- Hoje vou jantar a casa de uns amigos. Liguei só para dizer que está tudo bem.
- Está bem, filho. Amanhã falamos melhor. Um beijinho – Despediu-se com uma voz bem mais triste do que no início segundos antes.
- Beijinho. Até amanhã. Cuide-se. – Terminei com a sensação de que era o pior filho do mundo. Sei que a pessoa que a minha mãe mais gosta de contar as coisas e que sempre esteve lá sou eu e, ultimamente, tenho estado desligado e sinto que isso deixa a minha mãe triste. As minhas conversas são de cinco segundos, quase como só para informar que estou vivo e desligo. Mas, a protecção que tive está a desaparecer com a liberdade que tenho neste momento. E não consigo pensar. É mais forte que eu.
Só espero que ela me perdoe. Eu sei que sim. Mãe perdoa sempre.
Estou a jantar com os meus amigos, em casa do Francisco. Eles falam sobre os mais diversos assuntos: raparigas, álcool, faculdade, drogas. Não ouço nada do que eles dizem. Estou num mundo à parte. Só consigo pensar na Ariana. É incrível como algumas pessoas não nos saem da cabeça por muito que tentemos. Ela é essa pessoa.
Conhecemos-nos na faculdade. Ela tem Teoria Política I comigo e, por isso, duas vezes por semana partilhamos a mesma sala. Nunca se sentou perto de mim mas noto nela vontade de o fazer. Tem um olhar sedutor, mas ao mesmo tempo tímido e nota-se que me acha uma certa piada. Gostava de falar mais com ela mas o meu lado tímido só me permite dizer meia dúzia de piadas e esperar que ela se ria, sem conseguir dizer mais nada nem convidá-la para beber um copo. Não quero estragar tudo, como aliás faço sempre que me meto com alguma rapariga.
“Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”.
A Voz. Sempre ela. A Voz. Sempre aquelas palavras. A Voz. Sempre o medo. Até onde? Até quando? Porquê? As questões acumulam-se na mesma medida da incerteza. A loucura só é quando se perde a noção da realidade. Será esse o problema? A minha perda de lucidez perante o mundo? Será a perda capaz de retrair a vontade? O sonho? O desejo?
A noite já vai longa. O corpo pede uma última dose. Encho-o e, em breves segundos, acabo com as dúvidas. A mente adormece. Até amanhã, Voz.
O problema é que, muitas vezes, adormecer não é suficiente para nos livrarmos da dor. Ela fica lá, num qualquer sítio entre a alma e o coração, e teima em perseguir-nos em sonhos. Estou a dormir, sei que estou a dormir, o meu corpo está sossegado e o meu batimento cardíaco está normal, o que é relativamente raro. Estou a dormir, mas a dor está acordada. A dor está sempre acordada, a puta da dor está sempre acordada. Não é uma dor física, antes fosse, as dores físicas podem ser apertadas até passarem, desinfectadas até cicatrizarem, cuidadas até sararem. É uma dor de alma, se é que a alma existe. É uma dor que não pode ser localizada, uma dor que não sei ao certo onde fica, uma dor que me adormece os sentidos e me faz perder o chão, uma dor que está aqui, noite ou dia, quer esteja acordado, quer esteja a dormir. A dor de ser mortal. Que espectáculo de marionetas é este, engendrado por um ser especialmente maquiavélico, capaz de nos dar vida e nos manusear como bem lhe apetece, lançando-nos ao mundo com uma única certeza: a de que vamos morrer. Não sabemos quando. Não sabemos como. Não sabemos se a nossa morte vai ser dolorosa ou, pelo contrário, pacífica. Não sabemos sequer se a morte dói ou se é apenas um adormecer lento, um sono prolongado.
Não sabemos nada. Só sabemos que vamos morrer. E vivemos com essa noção cruel de que vamos chegar à meta, vamos lá chegar, provavelmente coxos, esfarrapados, sem discernimento nem dignidade, com marcas e cicatrizes permanentes dentro do peito. Pelo caminho vamos perdendo aqueles que amamos e outros que não soubemos amar quando mais precisavam, aprendemos o que é o amor e o "desamor", encontramos pessoas que nos ajudam a construir palácios para, depois, os destruírem num sopro, sentimos a alegria das pequenas coisas e choramos a tristeza de não alcançarmos as grandes, ganhamos e perdemos, encontramos e desencontramos, amamos, odiamos, invejamos, sentimos o sabor amargo da frustração e a calma dos sonhos concretizados. E continuamos a caminhar. Não sabemos sempre por onde ir, nem sequer temos consciência de qual é o caminho certo, nunca chegamos a saber nada, rigorosamente nada, não somos donos do tempo, não podemos prender quem quer ir embora, não obtemos tudo o que desejamos nem recebemos tanto amor quanto gostaríamos de receber. E, em momentos como este, pergunto-me se não seremos apenas marionetas sem livre arbítrio, orientadas pelas mãos de alguém, enquanto vivemos na doce ilusão de que controlamos o que quer que seja.
Acordo de repente. Dói-me o peito como se alguém estivesse sentado em cima de mim. O pânico. A porcaria do pânico. Os ataques chegam quando menos se espera e quando se pensa demais – e como posso não pensar demais quando sei que sou mortal e que tudo o que amo é, também, mortal? Acendo a luz, abro a gaveta da mesa de cabeceira do lado esquerdo da cama e agarro a caixa de comprimidos SOS que o meu médico me receitou para estas situações. Não os devia tomar depois de ter bebido, conheço os efeitos das misturas entre álcool e medicamentos, mas neste momento nem isso me interessa. Tomo dois comprimidos com um resto de água que está há alguns dias em cima da mesa de cabeceira. O meu coração quer saltar fora do peito, bate tão depressa que quase o consigo ouvir. Depressa a medicação faz efeito e acabo por adormecer, desta vez com a mente mais limpa. A dor ainda cá está e sei que esperará por amanhã para continuar a consumir-me. Amanhã será um dia a mais. Ou a menos. Prefiro acreditar no copo meio vazio.
[8h30 da manhã]
É verão e o calor já é muito a esta hora da manhã. Abafado, com a cabeça pesada, levanto-me. Ligo a ventoinha e deixo o quarto a refrescar. Ainda meio ensonado, e também com uma terrível dor no estômago, esfrego os olhos e espreguiço-me. Sinto-me vazio. A noite anterior é uma nódoa negra na memória. Pior do que acordar numa manhã na incerteza do que virá é acordar sem se lembrar do que sonhou.
Pego no telemóvel. Abro o e-mail, um punhado de redes sociais, algumas apps de jornais diários, a conta do banco para verificar o saldo e as transferências e os lembretes do dia. Sim, lembretes! A memória, em alguma parte, começou a deteriorar-se. Não existe a frescura nem interesse de outros tempos.
Olho-me ao espelho. O rosto está cansado. As olheiras, carregadas de noites mal dormidas, juntam-se às primeiras rugas. Às marcas de guerra de uma vida que ficam registadas no corpo. Enquanto isso, ainda estou a fazer o esforço para me lembrar do sonho. Sim, porque num subconsciente estará perdido o sonho desta noite. E quero viajar até lá e recordá-lo.
Não paramos para fazer esse exercício. Habituamos-nos à rotina sem perceber que estamos a perder momentos importantes e que completam esta passagem por cá. Reduzimos-nos à insignificância por acharmos sempre que os outros são melhores do que nós ou porque simplesmente não somos capazes. Sem os sonhos, sejam eles como e de que maneira forem, são essenciais para nos mantermos vivos e agarrados ao desejo de conhecer e conquistar.
Nunca acreditem em profetas. Os presságios são tiros no escuro. E eu já estou cravejado de balas que falharam o destino e acabaram no alvo errado. Imaginem alguém com um machado e que divide simetricamente as vossas emoções. Numa parte tens a dúvida, noutra a certeza. Pegas nas duas e colocas na balança. Mas, diferente de todas as outras balanças, esta demora a calcular. Diria até que a vida não é suficientemente longa para determinar o valor e a importância exata de cada parte. A vida, desde o seu início, prepara diferentes etapas e todas elas têm um início, meio e fim. E, o mais importante, é compreender que quando termina um ciclo outro imediatamente a seguir se está a iniciar. São estas etapas que moldam quem somos e nos preparam para sobreviver, dia após dia.
Senti uma vibração forte na cabeça. A dor surgiu instantaneamente. Agoniante. E a Voz…
“Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”
Os minutos que se seguiram foram aterrorizantes. Dentro de mim escutei risos e choros, gargalhas e suspiros, convívios e solidão. Opostos que se uniram em memórias fugazes. As pernas tremem e fraquejam. Estou de joelhos. Com as mãos na cabeça tento acalmar a dor. Em vão. O coração palpita forte. Sinto o coração a bombear o sangue com enorme força pelas veias. Preciso de me acalmar.
Com esforço, levanto-me e vou em direção à cozinha. Pego num copo, abro o frigorífico, e tiro de lá uma garrafa de água fresca. Encho e bebo. O cérebro congela e atinjo o pico da dor. A partir daí será tudo mais leve. É o meu truque e resulta sempre.
Sento-me no velho cadeirão. Passo as mãos na cara.
- Estarei louco? Que Voz é esta? O meu corpo está tão frágil!
Olho para o vazio. Por mais que se tente desprezar algo que aconteceu no Passado ele renascerá, mais tarde e mais forte, dentro de ti. Ele fará ver-te que o que aconteceu não deverá ser esquecido. Os erros são lições da vida e não existe borracha para os apagar. Preparam-nos para o desconhecido. No entanto, esta permanente gravação do que não se pode esquecer deixa-nos a questionar quem somos e o que estamos aqui a fazer. Estas emoções dúbias corrompem a nossa determinação e, sem isso, não somos capazes de encarar a realidade que se aproxima.
E, de repente, o sonho da noite… o subconsciente apodera-se de mim…
Recordo a noite anterior com clareza, o pânico, a dor no peito, o desespero, o álcool e os medicamentos. E assola-me a mente a imagem que dormiu comigo, no meu subconsciente, a imagem que não me abandona: a imagem do meu pai. Morreu há seis meses, vítima de ataque cardíaco. À minha frente. A merda dos ataques cardíacos. Vi-o ser consumido pelos vícios depois de uma espiral negativa. Vi esta doença sem rosto a aparecer, fugazmente. O meu pai tinha olhos grandes e escuros onde cabia o mundo inteiro, um coração que recebia todos aqueles que nele quisessem entrar e um abraço quente e apertado, daqueles que nos esmagam os ossos mas de onde não nos apetece sair. O meu pai era a melhor pessoa do meu mundo. Era duro mas uma boa pessoa – e até as melhores pessoas adoecem. Não nos serve de nada sermos bons, adotarmos um estilo de vida seguro e levarmos a vida nas calmas se, no final, as doenças nos escolhem a todos, caem-nos em cima com o peso do mundo e não nos deixam respirar. É quando nos morre uma mãe ou um pai que percebemos que podemos ser amputados sem nos cortarem os membros superiores ou inferiores: amputados de pilares, os pilares que alicerçaram a construção dos castelos e palácios daquilo que somos.
Quando o meu pai ficou desgastado com o tempo eu ainda era um rapaz cheio de positividade. Encarava a vida como uma dádiva e achava que na mente residia a cura para todos os males, inclusive os do corpo. Não vou mentir: doeu-me ouvir o meu pai a querer desistir muitas vezes. Duas palavras tão simples que, juntas, podem destruir vidas e matar sonhos. Quero desistir. Senti-me ficar sem chão, chorei, em silêncio, muitas vezes. Disse-lhe que ia ficar tudo bem e ele apertou-me com a força de quem se quer agarrar à vida e as minhas lágrimas secaram. Durante a luta contra a espiral negativa mantive sempre a mesma atitude e, de cabeça erguida, dei a mão ao meu pai e vivi com ele toda aquela jornada, com tudo o que de bom e de mau isso implicou. Ao fim de alguns anos, lágrimas e muita dor, tudo aconteceu. Fugazmente, caiu para o lado. à minha frente. Só ele e eu. Agarrou-me no braço e senti a ir-se, sem conseguir fazer absolutamente nada. Só o ouvia a chamar por mim. Para o ajudar. E falhei.
Quando percebi a morte não consegui reagir, congelei. Fiquei estático, petrificado, imóvel. Na minha cabeça ecoavam, numa repetição constante, as palavras: “Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro”. Foi nesse momento que percebi que nunca estamos preparados para a morte, mesmo que haja doença, mesmo que haja desgaste, mesmo que não haja esperança. Nunca estamos preparados para a morte e é quando achamos que estamos que ela nos apanha de surpresa. Sempre de surpresa. Engane-se quem acha o contrário.
Depois da morte do meu pai fiquei amargo, de mal com a vida. Perdi todas as minhas crenças, todos os meus valores acabaram por ficar distorcidos, disformes. Senti-me amputado: senti-me sem braços e sem pernas. Os pais são, de certa forma, os nossos braços e as nossas pernas: precisamos deles e não concebemos a ideia de, um dia, já não estarem. O meu coração vestiu-se de negro e recusa sair à rua e expor-se à luz. Não me despedi do meu pai. Não houve tempo. Não me lembro da voz dele. Não consigo sentir o seu toque. Não sei quando demos o último abraço nem quando foi a última vez que lhe dei um beijo de proteção na testa. Não sei. Não sei. Não sei. E a voz ecoa na minha cabeça, como um ruído irritante que não sai de mim: Preto. Negro. Escuro. Preto. Negro. Escuro.
[Seis anos antes]
O despertador toca. Nunca gostei de definir músicas da moda para o meu alarme matinal. Continuo a preferir aquele toque irritante que me obriga a abrir os olhos, pegar o smartphone e desligar o alarme. Desperto e não volto a adormecer.
Levanto-me rapidamente. Vou tomar um duche. Para variar acordei mais cedo que o necessário. Nunca gostei de chegar atrasado a nada e preciso de tempo para preparar as minhas coisas. E já não é cedo. Mas esta minha nova vida está a consumir muito do meu tempo.
“Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer” não se aplica, de todo, a mim.
São cinco horas da tarde. Não fui às aulas da universidade mas não falto ao jantar com alguns dos meus novos amigos. Acabam por ser prioridades de um jovem sedento por liberdade e com alguma rebeldia à mistura. O jantar é às 19h30. E a casa do Francisco é do outro lado da cidade. Só preciso de comprar umas bebidas e faço-me ao caminho.
Hoje tenho algumas coisas importantes em mente. Não são as aulas nem o início da minha vida académica. Mas sim a Ariana. Paixões instantâneas. Sim. Em dois meses já conheci mais raparigas do que em todos os anos da minha existência. Eu? Raparigas? Estou no meu novo mundo. Sinto que não sou eu mas estou viciado. Em pouco tempo esta adrenalina, e alguma testosterona a mais, está a deixar-me dependente.
A Ariana é o estereótipo de mulher perfeita. Na minha visão. É divertida e, como eu, tem uma certa dose de timidez. É preciso saber levá-la e que ela goste de nós para dar confiança. Tive a sorte de ter as duas coisas. Depois, aquele cabelo castanho super claro, escurecido no tom mas ainda assim brilhante, liso – ligeiramente ondulado nas pontas -, olhos escuros mas delineados, maças do rosto com linhas perfeitas, covas elegantes quando esboça o seu sorriso, os lábios ligeiramente carnudos, tal como eu gosto, e uma silhueta corporal perfeita fez com que esteja interessado nela.
Antes de sair de casa, pego no telemóvel e ligo à minha mãe. A única pessoa que tento não deixar um dia sem dar notícias. Bastam três toques e atende.
- Olá – cumprimenta-me com a voz mais ternurenta que me lembro. – Como está o meu menino?
- Olá. Estou bem. E por aí? – Respondi.
- Também. Está frio e de chuva – A minha mãe sempre gostou de me atualizar sobre o tempo embora essa informação saísse da minha cabeça mais rapidamente do que entrou – Cheguei agora a casa do trabalho.
- Hoje vou jantar a casa de uns amigos. Liguei só para dizer que está tudo bem.
- Está bem, filho. Amanhã falamos melhor. Um beijinho – Despediu-se com uma voz bem mais triste do que no início segundos antes.
- Beijinho. Até amanhã. Cuide-se. – Terminei com a sensação de que era o pior filho do mundo. Sei que a pessoa que a minha mãe mais gosta de contar as coisas e que sempre esteve lá sou eu e, ultimamente, tenho estado desligado e sinto que isso deixa a minha mãe triste. As minhas conversas são de cinco segundos, quase como só para informar que estou vivo e desligo. Mas, a protecção que tive está a desaparecer com a liberdade que tenho neste momento. E não consigo pensar. É mais forte que eu.
Só espero que ela me perdoe. Eu sei que sim. Mãe perdoa sempre.
Estou a jantar com os meus amigos, em casa do Francisco. Eles falam sobre os mais diversos assuntos: raparigas, álcool, faculdade, drogas. Não ouço nada do que eles dizem. Estou num mundo à parte. Só consigo pensar na Ariana. É incrível como algumas pessoas não nos saem da cabeça por muito que tentemos. Ela é essa pessoa.
Conhecemos-nos na faculdade. Ela tem Teoria Política I comigo e, por isso, duas vezes por semana partilhamos a mesma sala. Nunca se sentou perto de mim mas noto nela vontade de o fazer. Tem um olhar sedutor, mas ao mesmo tempo tímido e nota-se que me acha uma certa piada. Gostava de falar mais com ela mas o meu lado tímido só me permite dizer meia dúzia de piadas e esperar que ela se ria, sem conseguir dizer mais nada nem convidá-la para beber um copo. Não quero estragar tudo, como aliás faço sempre que me meto com alguma rapariga.
Até que...

UAU! Sem palavras! Intenso. És um ser maravilhoso. Nunca desistas de ti.
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