Introdução - Reencontro

13 de Maio de 2017 - 1 Ano depois


Os primeiros raios de sol aquecem—me o rosto. Numa primeira tentativa de contrariar o despertar tão madrugador, viro—me para o lado oposto. Resulta, por breves momentos.


Por uma pequena fresta, de uma janela antiga, a suave brisa matinal de Verão ativa toda a minha sensibilidade cutânea até ao limite. Embrulho—me num fino lençol. Resulta, uma vez mais mas, também, por escassos instantes. Lá fora, o chilrear dos pardais em bando ecoa dentro dos meus ouvidos. Juntam—se a eles toda a bicharada comum desta época. Nada contra, não fossem apenas meia dúzia de mosquitos que teimam em sugar—me o sangue durante a noite enquanto fazem um zumbido irritante que não me deixa dormir.


Acabo por me virar de novo. Em vão. Abro um olho. Depois o outro. Salto da cama e, pela primeira vez, em mais de um ano, não me consegui lembrar da voz.


Quando perdemos alguém que é importante fazemos um esforço adicional para não perdermos tudo o que aprendemos e vivemos com eles. Incontroláveis, somos loucos por pensar que tudo se mantém igual num presente em que o passado não volta mais.
É agridoce. Somos privilegiados por viver mas é ingrato perder. De forma tão permanente que nos estremece e deita ao chão.


Com o tempo, entendemos que este ciclo natural da vida depende tanto de nós como de matemático a explicar línguas. É incontrolável. Preservar uma memória é fácil. Imagens ficam guardadas para sempre. Mas, por alguma razão, a voz é diferente. O som desvanece—se com o tempo até à insegurança de algo que já não corresponde à verdade.


De certa forma, este "bom dia" imaginário que ficou depois da partida acabou por desaparecer. Assustador. É um clip de um filme mudo que se repete uma e outra vez.
Nunca é fácil. Principalmente, para os que ficam a lidar com a dor daqueles que deram tudo para ser o que somos hoje. É um legado pesado e cheio de responsabilidade. Seremos melhores, pelo menos, assim o deveria ser. Por respeito, não só por nós mas, e sobretudo, por eles.


Não fossem estas coisas mais a estupidez humana e tudo no mundo faria sentido. E, talvez, haja coragem para voltar quando partiram sem uma explicação, sem uma palavra de conforto, nada. Seja em que lugar ou vida for

Saber reconhecer que algo se perdeu é um ímpeto lento de conhecimento do querer aprender na maioria da inteligência humana, afigurando-se assim a um indivíduo retrógrado, sem abertura de mentalidade e raciocínio para aceitar uma perda.

Ao longo da nossa jornada temos de hostilizar, sumptuosamente, a nossa maneira de ser e conviver em sociedade. A harmonia, entre seres, só funciona quando a capacidade de interagir e respeitar as opiniões de outrem se conjugam no mesmo meio envolvente, sem conflitos e desrespeito. O problema cria-se a partir do momento em que deixamos de existir, de nos lembrar de quem foi.

Delicadamente retalhamos em mínimos pedaços o nosso carácter juntando, no final, uma constituição completa, fomentada ou não, do ser humano.
Em escassas circunstâncias somos capazes de desafiar a nossa maneira de ser, entregando-nos a uma ideia, imperfeita, da realidade contratual entre os dogmas «reconhecer/aprender»

No entanto torna-se importante a necessidade de encontrar uma justificação verosímil para a conjuntura do desafio.

A mais dedilhada fundamentação emprega-se na seguinte afirmação: A vida por si só resume-se ao inane de conhecimentos num dado princípio. Com o evoluir da acção somos desafiados pelos incidentes, naturais ou não, que se impõem reformulando, assim, toda a objectividade que fomos adquirindo até determinado momento. Por isso, e com uma verticalidade de raciocino, somos aptos a entender que o desafio é um provocador assíduo da nossa maneira de agir, pensar e reflectir, o que irá ter influência determinante no carácter da personalidade.

O desafio, assente nestes campos de senso/juízo, é uma das bases da «Lei da Vida» completado com a máxima de que se «nasce, cresce e morre». E só temos de seguir o caminho. Ou tentar.

A história começa agora. Encontramos-nos no final. Até já!

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